segunda-feira, 6 de maio de 2013

Dilemas da Crítica Literária no Brasil

DILEMAS DA CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL


    Crivada de problemas de toda ordem, a crítica literária atravessa uma crise aguda. Até mesmo seu estatuto fôra ameaçado: qual o lugar da Critica Literária? Qual su contribuição para a constituição do ser humano?
    O conhecimento de obras literárias foi visto como estéril movimento do saber para o que é inútil. Ter como objeto o texto literário também se tornou um fardo vergonhoso, por estudar o fictício, a enganação, a velha mimesis de Platão. O mesmo fantasma ronda a cidade crítica: a consciência de seu papel distinto na construção do homem em sua plenitude.
    O desconforto nasce quando o repertório literário é julgado um manancial de inutilidades, para o qual não houve espaço no jornal durante as últimas décadas do século XX. Esse é o primeiro grande ponto ou dilema que a crítica literária precisa resolver para estancar o sangramento que virulentamente corre para áreas afins, como Ciências Sociais (na busca pelos Estudos Culturais), a Filosofia (na busca por Hermenêuticas) e Outras artes (na busca de um refúgio que aliviasse o melodrama do rejeitado e estanho objeto de desejo: a literatura).
    Na busca de relação com outras artes, a defesa do literário e sua relevância devem estar sedimentadas no cabedal de conhecimento de todo o profissional de Letras, sobretudo em Literatura.
    Então é fundamental a revalorização da natureza literária, para que a crítica subsista e não perca seu material mais complexo de investigação: a obra literária.
    Revalorizar a literatura significa primeiramente conhecer sua essência, para depois lhe projetar, identificar, reconhecer e valorizar a presença literária. Para tanto, a velha noção de literatura atrelada ao impresso precisa cair por terra, pois o discurso verbal pode acontecer de outros modos. 

Primeiro trecho da transcrição (fotocópia-xerox).

Não estranha que o principal problema da crítica hoje seja justamente a abordagem sobre a Literatura Contemporânea, porque exige o conhecimento da literatura, isto é, um conceito além de pensar nas suas relações e problemas com o mundo atual, notadamente cada vez mais ágrafo, embora utilize grafemas. Pode parecer excessivo, mas na verdade a sociabilidade contemporânea ruma para destinos que excluem a escrita, como suporte arcaico. A leitura é tolerada como meio de comunicação disponível. O principal contratempo, no entanto, não é a presença de grafemas mas essencialmente sua utilização para registrar e comunicar, sob uma forma coloquial, espontânea e imediata. Sua natureza é evidentemente oral, mas começa a se afirmar na escrita, tomando quase todo o espaço da produção textual da grande massa. Esse é o segundo problema que a crítica precisa enfrentar e estudar como fenômeno cultural que impacta na formação do homem pela dimensão do diiscurso e se relaciona com outras instituições, suportes e tecnologias. Além de reconfigurá-lo pelo discurso, deve reconfigurá-lo mais amplamente pela linguagem. Essa é a língua como exercício de toda a linguagem, isto é, a redução das possibilidades escricionárias e escriturais do homem ao denotativo. Roland Barthes irá dizer que esse domínio é fascista, indicando apenas um caminho obrigatório para a fala e o sentido, produção e leitura. Livrar o homem dessa alienação e reificação através do pensamento sobre língua, literatura e linguagem é apenas um dos “inúteis” objetivos da área de Letras. É preciso defender a dimensão criativa, extraordinária e imaginativa que constitui a maior complexidade e a maior relevância do homem.
    Superados esses dois problemas fundamentais, ligados à autoestima do campo literário, o dilema principal da crítica literária surge da relação entre os dois problemas: o nível constitutivo e o nível relacional da obra literária. A crítica literária precisa resistir ao esvaziamento do literário e a escassez do exercício crítico para refletir a relação entre literatura e história, isto é, qual o lugar da literatura e o papel do lugar com seus agentes: autor, leitor, crítico. Muitas vezes o objeto literário é pensado como reflexo da sociedade, de modo que a obra de literatura é dessarte porque o contexto histórico é destarte. Essa ligação (venal em todos os sentidos, desde visceral à venenosa) - essa ligação entre literatura e história põe a literatura a serviço da doxa, institucionalização verbal da complexa dinâmica social. Por aqui insiste Antonio Candido com sua sociologia da literatura, ávida de indiferenciar a literatura frente a outras produções culturais. Todorov, recentemente no livro A literatura em perigo, querendo exorcizar a pecha anti-histórica e anticontextual do estruturalismo (do qual participou ativamente) terminou arranjando outros fantasmas, por exemplo definir literatura como relato da civilização, símbolo nacional e ou cultural capaz de traduzir e informar o espírito da nação e de seu habitante. Além de ser teoricamente equivocada, a escolha do tema como critério para construir o cânone já vem demonstrando seu desastre agora também em termos práticos e objetivos: verificando o espírito nacional e a capacidade de a obra literária transmiti-lo, estruturou-se repleto de problemas que são reflexo e resultado dos dilemas da crítica literária no Brasil, graças à escassez do debate teórico.
    Mal definido ou mal tratado, o objeto literário permanece no canto escuro do abominável. 
 
Segundo trecho subsequente da transcrição (fotocópia-xerox).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Cursos de Extensão 2013.1

Os cursos de extensão são abertos à comunidade em geral e obrigatórios para os graduandos comporem o currículo e quitar seus deveres discentes (atividades científicas, cursos, seminários, eventos em geral).

A escolha pertence ao aluno sobre em qual evento se inscrever, seja curso ou seminário, até completar as horas complementares de atividades científicas.

Em 2013.1, o CPLetras oferecerá dois cursos:

Literatura Brasileira Oitocentista Aprofundada (20h): quinta e sexta-feira 11h-13h, 26/04 a 24/05, última reunião contará como atividade no blog. Prorrogação das discussões nas aulas de graduação na disciplina "Literatura Brasileira IV", século XIX. Porém é preciso considerar até um pouco mais, 1899 Setenário N.S. e Dona Mística; 1902 Kyriale (Alphonsus de Guimaraens), 1912 Eu (Augusto dos Anjos); 1914 Romances bárbaros (Coelho Neto), XIV Alexandrinos (Jorge de Lima);1915 Dentro da noite (Cassiano Ricardo) e Cristais partidos (Gilka Machado); 1917 A cinza das horas (Manuel Bandeira), Há uma gota de sangue em cada poema (Mário de Andrade), 1918 O perfeito cozinheiro das almas deste mundo (Oswald de Andrade e outros colaboradores), Urupês (Monteiro Lobato), ; 1919 Espectros (Cecília Meireles) e também outros como 1922 Luz Mediterrânea (Raul de Leoni). Além de muitas outras referências entre esse período (1832-1922) que tenham alguma relevância na historiografia literária.

Literatura Brasileira Novecentista: fundamentos aprofundados (20h): quinta e sexta-feira 11h-13h, 06/06 a 05/07. Antecedentes: O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, de Oswald de Andrade e colaboradores (1918); Carnaval, de Manuel Bandeira (1919); Juca Mulato, de Menotti del Picchia (1919); Pauliceia desvairada contendo o prefácio interessantíssimo e ode ao burguês, de Mário de Andrade (1921); Manifesto Pau-Brasil (1924) e Manifesto antropófago (1928), de Oswald de Andrade; Macunaíma, de Mário de Andrade (1928); Manifesto Regionalista, Gilberto Freyre (1928); A bagaceira, José Américo de Almeida (1928); O quinze, Raquel de Queiroz (1930); Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade (1930); O rei da vela, de Oswalde de Andrade (1933/1937); Vidas secas, de Graciliano Ramos (1938); Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues (1941); Sagarana, de Guimarães Rosa (1943); Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector (1943); Autran Dourado (1947); Grande sertão: veredas (1956); Poesia Concreta (1956-1964); Thiago de Melo (1966), O carnaval dos animais, de Moacyr Scliar (1968), Poesia marginal (1970), A resistível ascensão do Boto Tucuxi, de Márcio Souza (1981).

sábado, 20 de abril de 2013

Literatura Brasileira Oitocentista

Tarefas:

1 - Ler os livros indicados no Plano de Atividades:
2 - Adquirir Apostila e desenvolver as atividades




PLANO DE ATIVIDADES
Literatura Brasileira Oitocentista: apostila geral
1ª FASE (1836-1848)
Aula 02: 1836 – Revista Nitheroy, Gonçalves de Magalhães, Araújo Porto-Alegre e Torres-Homem
Aula 03 e 04: 1836 – Suspiros poéticos e saudades, Gonçalves de Magalhães
Aula 05 e 06: 1842 – O juiz de paz na roça, Martins Pena
Aula 07 e 08: 1844 – A moreninha, Joaquim Manuel de Macedo
2ª FASE (1849-1865)
Aula 11 e 12: 1852 – Lira dos vinte anos, Álvares de Azevedo, na tradição lírico-amorosa de Gonçalves Dias diferente da faceta indianista
Aula 13 e 14: 1853 – Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida
Aula 15 e 16: 1856 – Confederação dos Tamoios, Gonçalves de Magalhães
1856 – Cartas sobre a confederação dos tamoios, José de Alencar
Aula 19 e 20: 1865 – Iracema, José de Alencar
3ª FASE (1870-1878)
Aula 21 e 22: 1870 – Espumas flutuantes, Castro Alves
Aula 23 e 24: 1872 – Inocência, Visconde de Taunay
4ª FASE (1878-1888)
Aula 25 e 26: 1879 – A nova geração (artigo), Machado de Assis
Aula 27 e 28: 1878 – Canções românticas e outros versos, Alberto de Oliveira
Aula 29 e 30: 1879 – Primeiros sonhos,Sinfonias e poesias, Raimundo Correia
Aula 31 e 32: 1880 – Ocidentais, Machado de Assis
Aula 33 e 34: 1881 – Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
Aula 37 e 38: 1883 – Sinfonias, Raimundo Correia
Aula 39 e 40: 1884 – Meridionais, Alberto de Oliveira
5ª FASE (1890-1920)
Aula 41 e 42: 1888 – O ateneu, Raul Pompeia
Aula 43 e 44: 1888 – Poesias, Olavo Bilac
Aula 47 e 48: 1890 –  O cortiço, Aluísio Azevedo
Aula 49 e 50: 1893 –  Missal e Broquéis, Cruz e Souza
Aula 51 e 52: 1899 – Dom Casmurro, Machado de Assis
Aula 53 e 54: 1902 –  Os sertões, Euclides da Cunha
Aula 55 e 56: 1902 –  Kiriale, Alphonsus de Guimaraens
Aula 57 e 58: 1912 – Eu, Augusto dos Anjos
Aula 59 e 60: 1915 – Cristais partidos, Gilka Machado

Rigorosamente sob critério cronológico de publicação, o MOSAICO QUE É A LITERATURA BRASILEIRA OITOCENTISTA. 

Sob o aspecto estilístico ou hermenêutico, consultar Modernidade brasileira - Poesia Oitocentista. Edições Uesb, 2013 (no prelo). 

Durante todo o século XIX, verificamos que duas correntes se digladiaram: nacional e nacionalista, isto é, realista e idealista. O tema nacional, tratado o nacional como realista, faz o diálogo com a realidade social; pelo que a verossimilhança informa a verdadeira brasilidade fora de projetos identitários. De um lado, um grupo visivelmente ligado ao nacional como mimesis, representação do histórico:  O juiz de paz na roça (1842), de Martins Pena; A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo; Memórias de um sargento de milícias (1853), de Manuel Antônio de Almeida; Inocência (1872), de Visconde de Taunay, nos quais se vê a dinâmica social do povo brasileiro. De outro lado, o segundo grupo extremamente idealista cria projetos nacionalistas e começa a franquear no nível das ideias o culto ao índio (indianismo) para exaltar o nativo e a pátria: ufanismo. (Exceção aos parnasianos, que conformaram idealismo e realismo na transcendência e correspondência com o real: projetar o ideal no real e ver o real como ideal, cf. Brasil: Eco-nação parnasiana). É claro que se trata de uma ficção porque o nativo já não era mais Peri: o retrato do brasileiro em 1857 não era índio, e sim miscigenado -- Moacyr, filho do sofrimento -- cada vez mais também com a migração afro-escravocrata pelo tráfico negreiro. Estava claro que a heroicização do índio ou a libertação do escravo tornava uma minoria supervalorizada na ficção literária, porém altamente desprezada na realidade social. No projeto nacionalista de Alencar, demonstrado em O guarani (1857) -- romance que superaria as falhas do precedente Gonçalves de Magalhães, anotadas nas Cartas sobre a confederação do tamoios --, o índio brasileiro seria a encarnação do "bom selvagem", valente guerreiro justo e de bom coração sensível ao bem, cujo caráter é voltado às virtudes. A pergunta inevitável é: não há negros na mimesis Brasil alencariana (trilogia indianista)? Mais ficção do que a problematização do herói índio (Peri) na sociedade coetânea dos oitocentos foi a criação de Ubirajara (1874), imaginação a respeito da dinâmica sócio-histórica da América pré-colombiana, do Brasil pré-colombiano. Antes disso, até mesmo Iracema (1865) trazia a conjectura da realidade sócio-histórica do momento da introdução dos portugueses (1500 em diante). Nesse lado do nacionalismo, também havia Araújo Porto-Alegre; anos depois Gonçalves Dias, José de Alencar. Há que ressaltar: não era verossímil o Brasil da trilogia indianista, sobretudo os dedicados a passados longínquos (fundação, Iracema) ou pré-colombianos (antecedentes, Ubirajara). À parte o veio subterrâneo de Álvares de Azevedo com sua melancolia no mal-do-século (sentimentalismo lírico).

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Relação entre histórico e literário: realismo e literariedade

Osvaldo,

Suas dúvidas que permaneceram após o curso sobre Literatura Portuguesa Medieval deveriam ter sido colocadas ainda no período letivo, para que os outros alunos pudessem aproveitar e dizer algo.

A poesia palaciana é um flagelo do trovadorismo, ou o que restou dele. A estrutura reiterativa - isto é, a que contém repetições frasais - já era uma sofisticação trovadoresca, com seus refrões e bordões, além de palavras ou expressões distribuídas mais de uma vez no poema.

Desligar-se da música representou perda multimidiática, restando-lhe apenas interconexão com o teatro, por causa da performance.

De fato é um declínio a passagem do trovadorismo ao palacianismo, não só pela perda da relação com a música. Os trovadores participavam de um movimento internacional, que incluía até mesmo idiomas fora da latinidade, como o árabe e o alemão. A lírica, nesse momento, vivia a apoteose formal e conteudística. Pela forma, basta verificar a quantidade de recursos poéticos usados pelos trovadores e comparar com os dos palacianos. O trovadorismo conheceu centenas de técnicas formais, divididas entre as de cunho meramente estrutural e as que montavam o famoso sistema da vassalagem amorosa, o que significava uma visita na área conteudística. O casamento entre forma e conteúdo, o pensar poético integrativo, começa desde aí no trovadorismo. Pela parte conteudística, os trovadores cantavam a consumação amorosa ou a persistência contra os rejeites da amada (mia senhor) e os entraves contextuais (os delatores) para atingir a realização amorosa. Em ambos os casos, verifica-se a positividade, o triunfo do espírito na realização de interesses humanos dos mais elevados, a começar pelo maior deles: o amor. A esperança não se extraviou em utopias, decepções ou desistências. Todo o cantar de sofrer antecipava um cantar d'amor: servia apenas para contar a luta árdua e tenaz até o consentimento de mia senhor. Totalmente diferente é a poesia palaciana: voz da decepção, testemunho do fracasso, desilusão amorosa. No palacianismo, o sofrimento e a solidão são o destino do homem, o último estágio, a estação final de um trem repleto de amarguras. O telos - o fim enquanto finalidade, objetivo e destino - é, pois, derrocada, declínio; e na dobra eterna e natural com a arkhé - o início enquanto fundo, fundamento e origem - a poesia palaciana se constitui, do início ao fim, do fundamento ao fundado, uma circularidade essencialmente negativa: a falência do homem, o esgotamento de seu vigor. Traz uma essência de destruição do homem, no envio do "sospirar", já que o homem se constrói na luta incessante contra a derrota. O homem perde algumas batalhas - como o trovadorismo mostra - mas vence a guerra: o saldo entre perdas e ganhos tem que ser positivo. Na poesia palaciana, o homem é derrotado. Vivêssemos um mundo de frustração amorosa, a dor, a melancolia, o suicídio tomariam conta da realidade - e isso no âmbito do amor erótico apenas, pois se falarmos do amor universal, restaria o apocalipse e o mal em tudo. Até no sentido literal o homem morreria, pois sem a consumação do amor erótico, cessa a reprodução da espécie.

O fato de ser a poesia palaciana recitada em lugares do mais alto prestígio social interfere apenas na literatura como sistema, como instituição social (produtor, circulação da obra, público leitor). Enquanto sintoma periférico, apenas assinala a contradição entre o poético e o histórico, que em outro momento podem se conciliar. Mas esta informação não ajuda na compreensão da obra, somente no seu diálogo com o contexto histórico. Podemos e devemos conhecer o contexto histórico para justamente marcar a diferença dele com a obra de arte, embora possam parecer iguais em certas ocasiões. Se o contexto histórico aponta para o crescimento civilizacional em contraste com a tristeza da poesia palaciana, podemos concluir que a produção literária mais afinada com o seu tempo e os interesses humanos dessa conjuntura é, sem dúvida, o teatro, que conhecerá seu auge com Gil Vicente.

À margem do alto cânone, as novelas de cavalaria atravessaram toda a Idade Média. Como forma bastante popular, permaneceu ligada ao espírito do povo durante séculos. Por quê? Ora, o espírito humano não se dedica à extinção, à morte, à derrocada, e as novelas cavaleirescas sempre trouxeram o sentido de vitória e triunfo, mesmo diante de poucas ou muitas perdas, poucos ou muitos desafios.

A mudança de mentalidade não só provoca, mas é mudança de Linguagem. Aqui você precisa compreender a pluralidade e a dinâmica do real, para perceber que a marcha da história não faz o homem, mas o homem faz a marcha; que o contexto não molda o homem, mas o homem vive o contexto. Havendo toda a diversidade humana, a atuação de cada pessoa diverge da outra, e só coincide em alguns aspectos. Quando há essa semelhança, formam-se grupos, cada qual reunido por interesses comuns dos participantes. Os diveros setores da sociedade agem diferentemente, de acordo com seus valores, no limite imposto pela lei (pacto social) vigente em dado espaço-tempo. O contexto influencia, mas não determina a obra de arte. A razão do poema está entre texto e contexto. A influência do contexto aparece implicitamente na obra através do vocabulário. Se não houvesse pontos de contato com o real, a ficção não conseguiria comunicar nada. A teoria da informação já demonstrou que um repertório 100% desconhecido não comunica, pois a novidade precisa ser transmitida com apoio dos conhecimentos já consolidados no receptor. A poesia palaciana proclamou o declínio do homem num momento de crescimento humano, por conta do contexto? Veja que não há condições de sustentar uma respota afirmativa. Aqui é necessário compreender a questão da "criação poética". A obra de arte é uma criação desrealizante com base no real, que parte do histórico para o ficcional. Faça o curso "Realismo ou mimesis" agora em outubro para compreender a relação, no caso a dialética entre real e ficção.

A relação entre história e literatura no período específico da poesia palaciana segue algumas regras gerais e produz particularidades. A regra geral consta já no parágrafo anterior: o contexto influencia, mas não determina a obra de arte. Quanto mais fictícia, quanto mais desrealizante, mais densa, mais intensa é a obra literária. "A psicologia da composição" é alta literatura, mas "Canção do exílio" é baixa literatura. Os elementos contextuais do poema de João Cabral aparecem em quantidade quase ZERO, enquanto os elementos contextuais do poema de Gonçalves Dias aparecem em quantidade quase 100%. A ficção advém, como quase sempre na expressão romântica, pelo exagero sentimental, responsável pela distorção das coisas, pela desrealização. Trata-se, como se vê, de uma desrealização bastante pobre, principalmente no tema nacionalismo. A regra particular no período da poesia palaciana é assinalar que mesmo diante do progressismo, a lírica declinou. Você pergunta "em que medida o contexto não determina o período literário?". Está bem claro que não determina. Mas influencia? Claro que sim. De que modo? Fornecendo os referentes, para a construção do universo léxico. Esta é a verdadeira relação do período histórico com a literatura, tanto para esta época, como para todas as outras.

A relação entre referentes distribuídos no histórico e referentes distribuídos na obra é responsável pelo realismo. Os referentes do contexto histórico serão transformados na obra literária, ganhando autonomia. Passarão a ser referentes fictícios, embora oriundos do real histórico. Outros referentes, como os personagens, são fictícios na sua origem, cujo contato com o histórico não existe ou é extremamente alterado. A literariedade não exclui a mimesis (criação realista). Muitas vezes a desrealização opera no próprio processo de referencialidade, conservando a aparência de contexto histórico, mas na dinâmica entre seres e coisas difere totalmente da história. Nesse caso, a superficialidade engana: parece contexto histórico, mas por dentro de cada personagem e de cada paisagem acontece uma tranformação radical, de acordo com o pensar poético projetado neles. Por isso, é impossível beijar Gabriela, cravo e canela. Ela é fictícia, embora de origem histórica, e por dentro já se tranformou em outro ser, diferente da sua fonte inspiradora.

O realismo nunca foi retrato da época, porque sempre manteve alta literariedade, alta função desrealizante, embora superficialmente transparecesse a preservação histórica. É este jogo ambíguo, enganador, que caracteriza o realismo: dá a impressão de telejornal de uma época, de um registro histórico, mas não é. É possível aproveitar alguns elementos paisagísticos para recompor a época, mas a obra não é essa recomposição. E o estudo literário também não é a recomposição da época: isto quem faz é o historiador, e não o crítico ou o teórico da literatura.

A diminuição da literariedade é característica marcante da Literatura Contemporânea, mas essa baixa literariedade não se vê no realismo, muito menos no Naturalismo, pois este altera a realidade porque imprime nela um sentido determinista, fatalista e pessimista que a realidade não tem - e daí aumenta a carga fictícia.

Sua pergunta acerca da literariedade e do realismo ressalta uma verdade nos estudos literários. Como exercício judicativo, a crítica literária sempre foi excludente e totêmica: o seu instrumental teórico, desde sempre, hierarquizou a literatura em alta e baixa, alegórica e simbólica, complexa e simplória, etc. Por exemplo, a prosa sempre existiu, como você pôde ver no curso Literatura Portuguesa Medieval, quando se tratou das novelas de cavalaria. Mas esse gênero sempre foi desprestigiado, em favor da poesia, produção em verso dos três antigos gêneros (lírico, épico e dramático). Na época em que Aristóteles elaborou essa divisão tripartite, excluiu a prosa. Para a visão da época, a literatura era feita em versos, o que predominou durante a Idade Média e o Classicismo. A prosa só ganhou espaço com o romantismo, ou melhor, com o pré-romantismo. Hoje, já inserimos a prosa no cânone literário, mas o teatro é quase sempre esquecido. Nesse movimento de hierarquização, a poesia surge como alta literatura, com mais literariedade tanto em nível formal como semântico, e o romance estaria abaixo dessa perfeição. Essa constatação só vale em linhas gerais, pois Grande sertão: veredas tem mais literariedade que os poemas de Gonçalves Dias, portanto seria mais poesia do que a obra desse romântico. Inclusive por isso já estão chamando Guimarães Rosa de poeta, no sentido de que sua obra tem alta carga de literariedade.

A literariedade é então a desrealização, que rompe com a camada linguística e corrompe a relação entre significante e significado. Em nível formal, provoca a ficção, que transforma os referentes do discurso em entidades autônomas - embora às vezes dialogantes - frente ao real histórico. Em nível conteudístico, a desestabilização entre significante e significado produz a plurissignificação. Acontece que os sentidos superlativos dessa plurissignificação não são percebidos pela maioria dos leitores. A tarefa da hermenêutica é acessibilizar ao leitor os sentidos mais elevados do texto literário, em geral escondidos na metáfora.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cursos de Extensão 2012.2

O CPLetras - Centro de Pesquisa em Letras informa os novos cursos coordenados e ministrados pelo Prof. Camillo Cavalcanti:

17, 18, 19, 20/09/2012 - Pontos de Filosofia da Mente (14h-18h, sala 4, Módulo I)
Estrutura:
horário: 14h-18h
carga horária: 20h (16h de conferências + 4h de relatório do cursista)
local: sala 4, Módulo I

Programa:
17 - João de Fernandes Teixeira
18 - Neurolinguística e Ciência Cognitiva: John Searle, Noam Chomsky e outros
19 - Física Quântica e Filosofia da Ciência: Einstein, Hawking, Cassirer, Bergson
20 - Idealismo, Fenomenologia, Ontologia: Schelling, Husserl, Heidegger, Jasper

24, 25, 26, 27, 28/09/2012 - Eduardo Portella, 80 anos
Estrutura:
horário: 13h-18h
carga horária: 30h (25h de conferências + 5h de relatório do cursista)
local: sala 4, Módulo I

Programa:
24 - Dimensões
25 - Teoria da comunicação literária
26 - Fundamento da investigação literária
27 - Confluências, Literatura e realidade nacional, Vanguarda e cultura de massa
28 - Democracia transitiva


01, 02, 03, 04/10/2012 - Realismo ou mimesis
Estrutura:
horário: 14h-18h
carga horária: 20h (16h de conferências + 4h de relatório do cursista)
local: a combinar

Programa:
01 - Gnosiologia antigo-grega
02 - Ontologia do real
03 - Epistemologia do Realismo como categoria literária
04 - Gustave Flaubert e Machado de Assis

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O CPLetras agradece sua visita

O Centro de Pesquisa em Letras-CPLetras oferece cursos de formação complementar, em nível superior. Criado, em princípio, para divulgar atividades de Pesquisa do Prof. Camillo Cavalcanti, vinculadas à UESB - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Visitante, esteja à vontade para seguir os cursos que lhe interessarem.

Cordialmente,

CPLetras.

SUMÁRIO:
Agenda de Pesquisa Novos Rumos da Estilística (20h)
Convocatória
Aula 1 (Introdução)
Aula 2 (Leo Spitzer)
Aula 3 (Roland Barthes) cf Texto Didático "O Formalismo em Teoria Literária", Edições Uesb, 2013.
Aula 4 (Michael Riffaterre) inédito,2013.

Turma de Modernismo e Pós-Modernismo - Material Complementar
Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo - reportagem

Novos Rumos da Estilística - Módulo 2 Leo Spitzer

Um dos maiores nomes dos Estudos de Literatura, Leo Spitzer inicia seus trabalhos em 1910, voltado para o texto literário. Pensou um método de universo vocabular, na medida em que procurava estabelecer o repertório de um autor, segundo repetições de palavras, o que ele denominou de Círculo Filológico, termo emprestado de Friedrich Schleiermacher (romântico de Jena). Na observação desse círculo, o estilicista encontraria o stylisticum, isto é, a idiossincrasia do autor. Considerava que esta manifestação era um desvio da norma habitual, responsável pela essência da arte literária. Ao expor essas evidências, o estilicista poderia penetrar no "étimo espiritual", quer dizer, raiz ou origem do espírito literário. Por esse viés, queria Spitzer estabelecer relações entre a expressão e a psiquê do autor. Mais tarde, Spitzer abandona as investigações sobre essa dimensão exterior do fenômeno artístico e se concentra na análise puramente textual. Percebemos aqui a relevância de seu trabalho para a consolidação dos estudos literários, notadamente os diversos formalismos/estruturalismos, principalmente os russos. Leo Spitzer é um dos primeiros a reclamarem do divórcio entre Estudos Linguísticos e Literários. Embora a ênfase nos aspectos formais do método de Spitzer, o estilólogo também considerava os aspectos históricos e socioculturais para compreender o fenômeno literário. Autor extremamente dialético, via na convergência uma alternativa para o campo de Letras.

"Meu método de vai-e-vem de alguns detalhes externos [textuais] ao centro interno e a inversa, do centro até outras séries de detalhes, não é senão a aplicação do círculo filológico" (Leo Spitzer)

Exercícios: Procurar citações de autoria de Leo Spitzer.